Instituto de mulheres negras do Amapá (IMENA) denuncia o descaso governamental em relação às comunidades quilombolas durante a crise de distribuição de energia que acomete o estado há mais de 10 dias

No estado do Amapá, extremo norte do Brasil, cerca de 66 comunidades Quilombolas estão vivendo uma crise relacionada ao abastecimento de energia elétrica, água, alimentos e remédios em plena Pandemia.
Segundo relatos de Moradores dessas comunidades afetadas cedidos ao Instituto de Mulheres Negras do Amapá – IMENA, ao contrário do que dizem os governos estadual e federal a situação está longe de ser estabilizada pois o sistema de “rodízio” que está sendo implementado depois de 3 dias de apagão total não distribui energia de forma igualitária, privilegiado as regiões nobres das cidades em detrimento das periferias e zonas ruais, onde localizam-se a maioria dos Quilombos.

Ana Rita picanço da Silva, quilombola do Quilombo Conceição do Macacoari, denuncia:
“Meu Quilombo Conceição do Macacoari esta localizado na Rodovia AP 70, no quilômetro 78. Com o apagão ficamos totalmente isolados , alguns moradores se uniram pra verificação e dar manutenção a rede elétrica pois muitos ELOS das chaves queimados, transformadores estourados e fiação arrebentada. O pior dano foi na caixa do abastecimento de água, moradores racionando água, guardando comida nas casas dos moradores mais próximo e carregando água. O poder público NÃO pode olhar só pra cidade, também somos CIDADÃOS dignos de ter políticas públicas para nosso bem viver”.

A situação é semelhante no Quilombo da Rosa como denuncia Joelma Menezes.
“Me chamo Joelma Menezes, meu quilombo fica localizado na BR 156 km 25, onde atualmente mora aproximadamente 40 famílias, com o apagão ficamos totalmente isolados e caos que estamos vivendo com a falta de energia elétrica. O impacto foi maior no abastecimento de água da comunidade, fazendo que muitos percorrer quilômetro até às beiras dos igarapes em busca de água. Sem contar a comida que estragou. A falta de energia está causando grandes impacto na vida da mulher negra quilombo, uma grande sobre carga. E até o momento não recebemos apoio, nem ajuda, nada ninguém. Para o poder publico nós não existimos ninguém se comove, ninguém falada nada e ninguém quer ajudar, o que mas importa para eles nesse momento e fazer de tudo para eleger seus sucessores aliado a eles. Estamos com o descaso com as comunidades rurais”.

Denilson, do Quilombo Casa grande, relata o absurdo do lugar dos Quilombos no sistema de “rodízio”.
“Bom dia eu sou Denison da comunidade de casa grande, aqui a energia chegou na segunda-feira, e ela vêm duas horas de tempo depois vai embora, uma tremenda sacanagem com as comunidades depois do Curiau, Casa Grande, Mata Fome, Ressaca, Canaã, Abacate, Lontra , Santo Antônio enfim muitas comunidades no mesmo problema”.

O IMENA, que luta pela garantia de direitos aos Quilombos amapaenses há 20 anos, denuncia não só a gravidade material do que está acontecendo, mas também o racismo institucional em relação às Comunidades Quilombolas traduzido na morosidade e silêncio diante da situação, e a invisibilidade a nível nacional que acomete o Amapá e opera sobre uma lógica que privilegia fatos internacionais em detrimento de uma crise que impacta violentamente uma população de 861,7 mil habitantes e agrava ainda mais os efeitos da Pandemia no território Amazônico.

“O IMENA vem acompanhando o impacto deste empreendimento energético do Amapá no dia a dia das comunidades Quilombolas e rurais já que estas sofrem o racionamento espontâneo do fornecimento de energia elétrica. E pior que assim como as áreas rurais, elas pagam uma das taxas mais caras do país. Mas tem um diferencial, que as suas terras são impactadas pelas torres e no momento de caos como este que estamos vivendo no Amapá por conta deste sistema energético falido, são comunidades esquecidas, que estão esquecidas do rodízio, ou seja, desde o momento que teve o Apagão elas não foram incluídas nesse processo. O IMENA sempre foi solidário às lutas Quilombolas até porque nós também somos mulheres de territorios tradicionais. E junto com essas mulheres nos também assumimos essa luta para nós. Estamos junto das mulheres quilombolas nesse processo de enfrentamento e de luta” (Maria das Dores Almeida, presidente do IMENA).

O movimento negro de Belém (Rede Fulanas, CEDENPA e Marcha das Mulheres Negras) e Macapá, (CONAQ, Grupo Utopia Negra e Sankofa) estão realizando Ações de arrecadação de água, alimentos, remédios e materiais de higiene para apoiar os Quilombos.

Acesse @imena_ap e saiba como ajudar.

Texto: Rayo Machado para IMENA

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