Belém: uma cidade que reivindica sua identidade negra

A capital do Pará fez 405 anos nesta semana rompendo com o apagamento no cenário nacional e se reafirmando como um território histórico de resistência e negritude

 Texto / Flávia Ribeiro | Edição / Lenne Ferreira | Imagem / Joyce Cursino

O apelido de “Cidade Morena” não cabe à capital do estado do Pará como mostra o Censo Demográfico de 2010, que revelou o município como maior população negra do país. Belém fez 405 anos nesta semana e cada vez mais vem descobrindo sua negritude tão desconhecida pelo resto do país. A morenidade normalizada na região cede lugar à consciência sobre sua formação e identidade negras.

O último censo realizado no país, em 2010, traz o Pará como o estado em que 76,7 % da população se autodeclarou negra. O dado foi ratificado anos mais tarde, pelo Mapa da Distribuição Espacial da População Segundo a Cor ou Raça, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção e Igualdade Racial. No entanto, a presença e contribuição da população negra até hoje é invisibilizada na história da Amazônia, em especial na capital paraense, onde ser moreno e morena é marca identitária local.

“Afirmar a morenidade tem a negação da negritude em seu corpo, história, cidade, história da cidade. Entra, então, como recurso de “higienização” social – higieniza-se a palavra. A morenidade é imposta para que a negritude não mais exista, para que essa afirmação política da identidade negra desapareça. É uma “nova” roupagem para a antiga política de branqueamento” afirma Tainara Pinheiro, mestra em Sociologia e Antropologia.

Ela afirma que Belém é uma cidade extremamente desigual e que o discurso de morenidade como marca identitária tem raízes históricas. “As disputas de narrativas sobre qualquer coisa que seja revelam muito. Lá atrás, na Belle Époque, o projeto era fazer de Belém a Paris N’América. Não temos dúvidas de qual seria a classe social beneficiada disso e qual a cor dessa classe. Aqui, no nosso tempo, vemos as marcas disso espalhadas por Belém, está nas mediações visíveis da cidade: placas, nomes de lojas, símbolos nos espaços por onde caminhamos” pontua.

Em um estudo, realizado em parceria a antropóloga Carmem Izabel, elas compararam dois espaços próximos, Estação das Docas e Ver-o-Peso, mas com públicos de classes sociais diferentes. No espaço frequentado majoritariamente por pessoas de classe média e alta, há mediações de identificações raciais miscigenadas, ao passo que sobre negritude não. Já no espaço mais popular, as mediações de morenidade não estavam em placas ou nomes de produtos, mas estavam na boca do povo: referiam-se uns aos outros como “morenos”. “O espaço, as maneiras como nos relacionamos com o espaço, as mediações presentes, tudo influencia nosso comportamento e nossas identificações, são os recursos que estão disponíveis para que signifiquemos a vida, pois interpretamos a partir do que já foi interpretado. As mediações revelam os sistemas de crenças das sociedades. E os lugares onde cada mediação aparece podem contar também sobre interesses de classe. Revelam, inclusive, o que se nega” frisa a pesquisadora.

Ser negro e negra no Pará, e na Amazônia carrega semelhanças com outras partes do país, mas também algumas características próprias e isso está relacionada a processos históricos diferentes. Muitas vezes se fortaleceu uma narrativa de silenciamento sobre presença negra aqui, por um desconhecimento histórico, mas também por um projeto de apagamento proposital, segundo Roberta Tavares, historiadora.

“Essa situação não é diferente em Belém. Quando falamos de Pará e da incidência de uma população negra, ou melhor não branca, precisamos entender os contextos do passado, da colonização e escravização na região. O Grão-Pará, do período colonial e escravista grande parte do tempo foi todo esse território que hoje compreendemos como Amazônia Legal, a Amazônia brasileira, exceto o Acre que estava em outra situação de disputa territorial. O Amapá, por exemplo, é um desmembramento recente. Não se pode pensar a presença negra e indígena separada na Amazônia. Isso é um equívoco que se comete. A presença forte dessas populações explica a grande incidência de população não branca na região” destaca Roberta.

O período de escravização é algo que influenciou e traz características que marcam a identidade local até hoje. “Há uma ideia muito errada ensinada de que houve substituição da ‘mão de obra’ indígena pela africana, mas isso nunca aconteceu. No período de fortalecimento da escravidão de pessoas africanas no Grão-Pará, há o fim legal da escravização indígena, mas essas populações desempenhavam muitas vezes os mesmos papeis o mundo do trabalho. Uma presença nunca anulou a outra, estão aqui há séculos e marcam o território de uma forma que pode diferenciar do resto do Brasil. A experiência traumática da escravidão e do trabalho compulsório é compartilhado entre os dois grupos. Em todo esse território que chamamos de Brasil e na Amazônia com muitas particularidades e isso não pode ser considerado mero apêndice” explica a historiadora.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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