Eleições 2020: Plataforma reúne candidaturas comprometidas com o movimento negro em todo país

Com indicações em todas as capitais brasileiras e dezenas de cidades, novas indicações podem ser feitas. O critério para a indicação é a trajetória de trabalho, vínculo e compromisso com organizações e agendas do movimento negro brasileiro

Texto: Redação | Edição: Nataly Simões | Imagem: Dado Galdieri/Bloomberg

Há 30 dias do primeiro turno das eleições municipais, foi lançada a plataforma votosantirracistas2020.com.br. A ação é promovida por lideranças de organizações do movimento negro do país, cidadãos e cidadãs, defensores da democracia e dedicados à superação do racismo estrutural. A iniciativa apresenta candidaturas de pessoas negras com trajetória de trabalho e compromisso com movimentos, entidades, grupos e coletivos negros, periféricos, favelados, quilombolas e ribeirinhos, em diversas cidades brasileiras.

Além de conectar as candidaturas à potenciais eleitores, a plataforma visa engajar apoios presenciais e à distância, possibilitando que os interessados contribuam na divulgação das ideias da candidata ou candidato, mobilizem familiares e amigos e possam contribuir financeiramente para campanhas.

A falta de representação negra nos parlamentos, denunciada pelo movimento negro, ganhou notoriedade em agosto deste ano, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que definiu que o dinheiro do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e o tempo disponível para candidatos em rádios e na TVs deve ser proporcional ao total de candidatos negros que o partido apresentar nas disputas eleitorais. A decisão, apesar de favorável, levanta outras questões do racismo estrutural, como, por exemplo, as candidaturas que não se comprometem com as pautas que discutem a questão racial e a autodeclaração de pessoas brancas como pretas ou pardas.

O compromisso político das candidaturas apresentadas está expresso em quatro documentos que sintetizam as propostas do conjunto do movimento negro para o país: o Manifesto Enquanto houver racismo não haverá Democracia, a Carta de Princípios e Agendas da Coalizão Negra Por Direitos, a Agenda Marielle Franco e o Programa da Convergência Negra.

Para o professor Douglas Belchior, da Uneafro Brasil, a ideia é qualificar o debate sobre representação negra nos espaços de poder. “Não basta ser negro para que a questão da representação esteja resolvida. Precisamos de representantes eleitos que tenham como prioridade a reivindicação histórica do movimento negro brasileiro. Tanto à direita quanto à esquerda, que dirigem todos os partidos, submetem candidaturas negras aos seus interesses”, explica.

“Estamos num ano especial, em que o debate sobre o racismo é tema nacional. O oportunismo em relação à agenda é enorme e vem de todos os lados. O voto antirracista é o voto no movimento negro, ou não é! Por isso apresentamos candidaturas que expressam esse compromisso e representação coletiva”, complementa.

O retrato das eleições no Brasil

No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 56% das pessoas se declaram negras (pretas e pardas). No entanto, os dados de composição racial nos parlamentos espalhados pelo país demonstram o tamanho do abismo. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negros somam 24,4% dos deputados federais e 28,9% dos deputados estaduais eleitos em 2018 e, dos vereadores eleitos em 2016, somam 42,1% de pretos e pardos.

Se analisados os dados de raça e gênero de forma cruzada, observa-se que nas últimas eleições municipais foram eleitas em todo o país apenas 2.880 vereadoras negras, o equivalente a 4% do total de 57.843 vereadoras e vereadores eleitos. Na capital do Rio de Janeiro, para a Câmara, apenas sete mulheres ganharam as eleições, das quais apenas duas se autodeclararam negras (pretas e pardas), sendo uma delas Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018.

Entre as personalidades que subscrevem a plataforma com candidaturas comprometidas com o movimento negro estão Anielle Franco, educadora, jornalista, escritora, feminista preta, mãe de meninas, diretora do Instituto Marielle Franco, irmã da ex-vereadora; Douglas Belchior, Historiador e membro do Conselho Geral da Uneafro Brasil; Elisa Larkin Nascimento, escritora, doutora em psicologia, diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos AfroBrasileiros (IPEAFRO); Hélio Santos, Presidente do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade; Lucia Xavier – Ativista militante do movimento de mulheres negras; Mônica Oliveira, militante feminista da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco; Ieda Leal, Coordenadora Nacional do Movimento Negro Unificado; Edson França, coordenador da UNEGRO, Rosilene Torquato, Coordenadora nacional dos Agentes Pastoral do Negro; Biko Rodrigues, Coordenador Nacional da CONAQ; Flavio Jorge, da executiva nacional da CONEN; Raul Santiago, do Coletivo Papo Reto e Pedro Borges, da Agência Alma Preta.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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