Em tempo de Covid-19, Fulanas, é importante o ecoar de todas as nossas vozes quando chamadas a lutar.

Macapá/AP, 9 de maio de 2020.

Prezadas Fulanas,

Estamos em um momento tão difícil de pandemia, provocada pelo coronavírus, que, de certa forma, tende a nos dispersar, mas sigamos em frente, sem perder de vista nossas ancestralidades e alguns pontos que considero importantes serem lembrados, por serem a face de nossa Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira (NAB).


A começar por três momentos de muita significância de 2008: o primeiro, em Belém/PA, quando Nilma Bentes, me fez convite para a tecedura dos fios da Rede Fulanas, momento de sua fundação. O segundo, às margens do rio Inhangapi, tambémno Pará, momento inesquecível de consolidação, no qual, ao terminar meu pronunciamento, mais de duzentas mulheres aplaudiram e disseram: “sim, nós vamos embalar esta rede”. O terceiro, no lançamento da rede em Macapá/AP, por Maria Luiza Nunes, do Cendepa, na presença de mais de trinta mulheres negras, em que se estabeleceu uma conexão de Mulheres Negras Amazônicas do Pará e do Amapá, que, com o tempo, se estendeu.


Destaco a identidade da Rede Fulanas, cujo nome vem da etnia fula, um dos povos africanos traficados e escravizados no Brasil, notadamente na Amazônia — lembrando que também ouvi minha mãe se autodefinir como preta fula. E a logomarca da rede, com três fulanas tecendo uma conversa, mesmo geograficamente distantes, para vencer a invisibilidade, levando-nos a refletir ser possível, juntas, em nossas cidades e comunidades, denunciarmos as opressões vividas pelas mulheres negras na Amazônia, principalmente neste momento de pandemia.


A essência do balanço da rede é a luta das mulheres negras da Amazônia brasileira, por isso, ela tem vida e diversidade e é dinâmica e solidária. Os nós que formam suas tramas significam o compromisso, a dor, os desafios, as incertezas, as vitórias e as conquistas coletivas. Compreende-se que cada organização/mulher presente nessa rede tem o seu jeito de balançar, mas, considerando sua essência e sua identidade, não podemos ficar em descompasso neste momento de pandemia. É importante, se possível, o ecoar de todas as nossas vozes quando chamadas a lutar, pois somos guerreiras, aprendemos com Felipa Aranha, a liderar multidões, logo a resistência faz parte do nosso cotidiano.


Para finalizar, uma pergunta que gosto muito de fazer: o que nos diferencia de outras mulheres negras brasileiras? Exatamente ser mulher negra amazônica, porque somos movidas pela natureza, pela chuva, pelo rio — são seus tempos que determinam nossos fazeres. Logo a conservação da biodiversidade está entre nossos desafios, o que
nos leva ao nosso principal desafio que é a consolidação do feminismo afro-amazônico, baseado, sobretudo, em nossa relação comunitária e solidária e na filosofia do Ubuntu, “porque quando somos, eu estou também”.

Maria das Dores do Rosário Almeida (Durica Almeida)

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