Empreendedorismo negro movimenta R$ 1,6 trilhão/ano

Empreendedorismo negro movimenta R$ 1,6 trilhão/ano

Autor: Maria Alice de Souza
Data da postagem: 14:40 16/11/2020
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A valorização da cultura e as preferências da comunidade negra, durante anos ignoradas pelas grandes marcas de moda e beleza, abriram caminho para muitos empreendedores negros. De olho nessa carência, eles investiram nas características específicas dos afro-brasileiros, como roupas com estampas relacionadas às tradição africanas ou salões de beleza especializados no cuidado do cabelo crespo e cacheado. A representatividade é o que atrai o público a esse modelo de negócio.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto Locomotiva apontam que 56% da população brasileira se considera negra ou parda e que há mais de 14 milhões de empreendedores negros no Brasil. Um mercado que movimenta cerca de R$ 1,6 trilhão por ano.

É necessário estimular empreendedores negros para a criação de mercados voltados ao impacto social, um perfil de negócio que “converse” e provoque a sensação de “pertencimento” ao consumidor, é o que destaca o gerente regional do Sebrae na Bahia, Rogério Teixeira. Para ele, muitas empresas não observam essa demanda e perdem a chance de investir em um nicho promissor, principalmente em Salvador, com a maior parcela da população negra.

O gerente relata que nos últimos anos, quando temas como empoderamento e identidade étnica passaram a ser mais discutidos, o comportamento do consumidor foi sendo transformado, o que torna esse ramo uma excelente oportunidade de investimento. “Toda empresa existe para atender à necessidade de alguém ou de um grupo”, comenta.

Diversidade racial

Nesse cenário, visando iniciar um negócio, fortalecer a cultura afro e fomentar o empreendedorismo negro, a empresária Najara Black criou a loja virtual (@nblack_21), em 2005, com o intuito de trazer a moda afro-brasileira, contemporânea e despojada. Ela conta que depois de sofrer racismo em uma entrevista de emprego, decidiu que não iria trabalhar para ninguém. Foi quando resolveu empreender e vender bijuterias. Pouco tempo depois, migrou para a costura.

O sucesso não veio de imediato. Após criar a linha de roupas, distribuiu as peças entre os amigos como forma de divulgar a marca, entretanto ninguém usou. Com as roupas em estoque, ela resolveu ser a própria vitrine. “Eu invadia todas as festas de Salvador usando minhas camisetas, e isso foi despertando a curiosidade das pessoas”, lembra Najara.

Em 2007, ela fechou parceria com o grupo de pagode Guig Ghetto, o que resultou no reconhecimento da marca no segmento. Depois de anos vendendo em casa, a empresária inaugurou uma loja física, no local onde, além de comercializar os produtos, realizava eventos e convidada outros empreendedores para divulgar os negócios.

Após devolver o ponto comercial, por solicitação do proprietário, ela voltou a trabalhar em casa e, este ano, quando planejava abrir um novo espaço, teve que cancelar os projetos devido à pandemia da Covid-19. Atualmente a NBlack segue funcionando no Instagram. Para efetuar compras, o cliente pode entrar em contato pela rede social ou via WhatsApp.

A valorização das raízes é um dos princípios do afroempreendedorismo. É o caso do salão de beleza Yalodê (@yalodecabelos), no bairro da Liberdade. O local é especializado em cuidados dos cabelos crespos e cacheados sem agredir ou mudar a textura dos fios. “Criamos um tratamento próprio para esses cabelos, baseado na procura e necessidades dos clientes, sem mudar a identidade étnica de cada cabelo. Nosso propósito é cuidar e tratar”, relata a proprietária, Bárbara Aguiar.

Segundo Bárbara, a ideia era criar um local com estrutura apropriada e bons profissionais, uma vez que as especialistas em cabelo afro na maioria trabalhavam de forma autônoma e atendiam na casa do cliente ou na própria residência. “Eu queria quebrar esse paradigma, fazer um salão com o mesmo nível dos salões de cabelos lisos, com boa estrutura, profissionais realizados, com tratamento especializado, e foi daí que surgiu o Yalodê”, conta.

O estabelecimento ficou fechado durante todo o período de suspensão das atividades comerciais, obedecendo aos decretos vigentes para conter a propagação do vírus, entretanto, para continuar atendendo as clientes, a empreendedora passou a usar as ferramentas digitais, como WhatsApp e Instagram, para dar dicas de cuidados e manutenção sem precisar irem até o salão.

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