Racismo faz mal à saúde mental, mas falar sobre ele é forma de prevenção

Racismo faz mal à saúde mental, mas falar sobre ele é forma de prevenção

Era o ano de 1993. Pátio da escola lotado, centenas de crianças correndo de um lado para o outro no horário do recreio. Eu era uma delas. O sinal tocou e rapidamente criou-se uma fila em frente ao bebedouro, uma por uma foi saciando a sede. Eis que chegou a minha vez e, assim como os outros, fui bebendo água, até ser interpelada por um coleguinha:

— Ande logo!

— Espere — respondi calmamente. — Ainda estou com sede.

— Você não deveria nem estar bebendo essa água daqui. Você deveria beber a água do esgoto, que é preta feito você.

Essa foi uma situação real que aconteceu comigo, quando eu tinha apenas sete anos e estava aprendendo o bê-á-bá. A escola pode ensinar muitas coisas; infelizmente, naquela época, não estava preparada para ensinar aos meus colegas brancos o que é respeito ao próximo e, a mim, o que era o racismo.

A cena que eu acabei de descrever aconteceu há mais de vinte anos, mas ficou guardada na minha memória. Com o acúmulo de outras experiências de violência racial, um processo de adoecimento mental foi inevitável.

O Brasil ocupa topo do ranking no número de casos de depressão na América Latina, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), com cerca de 12 milhões de pessoas afetadas pela doença. Ainda de acordo com a OMS, a ansiedade é outro transtorno que acomete 18,6 milhões de brasileiros.

Na faixa etária de 10 a 29 anos, o índice de transtornos mentais também é preocupante, especialmente entre jovens negros: estes chegam a ter 45% mais chances de desenvolver depressão que um jovem branco. Por isso, precisamos falar sobre a saúde mental da população negra.

Racismo e adoecimento mental

Falar sobre raça nos ajuda a entender como pretos e brancos são percebidos no Brasil e, consequentemente, de que maneira são tratados. Na década de 1990, o jornal Folha de S.Paulo conduziu uma pesquisa em que perguntava aos seus participantes: “Você conhece alguma pessoa racista?”. 90% das pessoas responderam que “sim”, mas quando questionadas se eram racistas, este número surpreendentemente caiu para zero.

Essa pesquisa demonstrou que o reconhecimento do racismo como um problema social parece não produzir efeitos no mundo real. Segundo o professor e antropólogo Kabengele Munanga, o racismo é o crime perfeito: produz vítimas, mas não existem autores.

Porém, suas consequências na vida de pessoas negras são palpáveis e devastadoras. “Podemos ver o impacto do racismo na construção da subjetividade da população negra através de sentimentos de inferioridade, baixa autoestima, sentimentos de vergonha, culpa, medo, angústia, ansiedade, insegurança, inadequação, autocobrança excessiva, rigidez”, diz a psicóloga clínica Fernanda Pinheiro. Segundo ela, são efeitos de um longo processo de desumanização e desqualificação de um povo, suas histórias e representações. “O racismo é tão perverso que impede a construção saudável de si e de uma autoimagem fortalecida”.

De acordo com Pinheiro, esse imaginário racial que inferioriza pessoas negras foi moldado desde o período escravagista. “É importante pensar que são repercussões psíquicas que vêm desde o sistema escravocrata, com a desumanização do povo africano acompanhado de uma ideologia de dominação racial. Essa ideologia valoriza positivamente a incorporação de aspectos culturais e discursos construídos pela sociedade branca e desqualifica a herança cultural de origem africana”, explica.

Racializando o lugar social

Uma questão fundamental quando se discute a pauta racial é o entendimento equivocado de que só têm raça os sujeitos não-brancos. Isso significa que pessoas brancas são tomadas como premissa universalizante, ou seja, aquilo que é entendido como o “normal” e referência para o restante da população.

O problema dessa premissa é o reforço de uma suposta hierarquia racial. “A branquidade ou branquitude, ideologia racial de supremacia do sujeito branco, tem como definição sua universalidade. No entanto, o sujeito branco precisa se entender primeiramente enquanto pertencente a um grupo racial, porque, desta forma, a noção de centralidade deste sujeito é eliminada e este passa a se localizar socialmente como produtor e perpetuador do racismo”, explica Gabriel Leal, fundador da plataforma Redes Vivas, que objetiva produzir cuidado à saúde das populações negra e LGBT.

Entender-se enquanto pessoa branca —e que isso acarreta em privilégios — nem sempre é uma tarefa óbvia. Para o professor de história Lucas Holanda, essa noção veio tardiamente. “Eu nunca precisei pensar sobre minha cor ou sobre o que ela me trouxe de privilégio social. Passei a olhar mais atentamente para essas questões quando comecei a conviver mais com pessoas negras e a entender que minha experiência no mundo era muito diferente daquelas pessoas. Eu tenho 35 anos e nunca sofri uma abordagem policial em que não me tratassem por ‘senhor'”, conta.

A tomada de consciência racial por pessoas brancas é um caminho tão longo e complexo quanto o de pessoas negras. “Um dia passeando no shopping, precisei de uma informação. Olhei para o lado e havia um jovem negro de terno. Pensei: vou perguntar àquele segurança. Porém nada naquele rapaz indicava que ele era funcionário do shopping, não havia nenhuma identificação funcional nem nada do tipo. Era apenas o meu racismo internalizado vindo à tona ao enxergar, na imagem daquele homem, a figura de um segurança”, lembra Holanda.

Infelizmente, a naturalização dos lugares subalternos para pessoas negras ainda é uma realidade. Segundo o Instituto Ethos, apenas 10% dos cargos de chefia são ocupados por pessoas negras no Brasil. Um dos elementos que impedem a ascensão delas é o racismo institucional. “Estudei em um colégio de classe média do Recife e, por muitos anos, fui a única aluna negra da instituição. Sempre que ocorria algum problema na escola, a direção buscava se certificar se eu estava envolvida. Recordo de situações em que meu grupo de amigas, ao ganhar competições de gincana, sempre recebia os prêmios. Apesar de estar na equipe vencedora, essas premiações jamais me foram entregues”, diz Jesus Moura, professora e integrante do Conselho Federal de Psicologia.

O racismo estrutural —que se manifesta das mais variadas formas na vida de pessoas negras — está presente desde a infância até a vida adulta. “Eu era professora de uma instituição de ensino superior e, em decorrência das minhas atividades, ganhei um prêmio em dinheiro. Todos os docentes que ganharam este prêmio receberam o depósito em suas contas. Eu nunca recebi”, revela Moura.

O papel dos brancos

Estudante de artes visuais da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Letícia Carvalho é militante do feminismo negro e compreende o racismo institucional a partir da falta de acesso. “Racismo é uma questão que não é só sobre pessoas negras, embora exista no imaginário a ideia de que ele afeta apenas pessoas negras. A falta de políticas públicas para a população negra gera um desequilíbrio social que afeta todos nós”, diz.

O administrador de empresas Victor Martins é militante antirracista e sabe bem o esforço que pessoas negras precisam fazer para o “letramento racial” de pessoas brancas. “Carregamos diariamente o peso de estarmos vivos em uma sociedade que opera uma biopolítica de morte contra negros, a necropolítica, conforme conceito introduzido pelo filósofo Achille Mbembe. Seria injusto carregar a responsabilidade da educação antirracista de pessoas brancas. Então, creio que deva ser sempre uma opção”.

Se o entendimento da pauta racial não cabe às pessoas negras, qual o papel de pessoas brancas na luta antirracista? Renato Camargo, homem branco e Chief Marketing Officer da RecargaPay, parece ter a resposta. “É preciso que pessoas brancas entendam todo o movimento [negro] antes de tomar uma atitude efetiva antirracista. Existem inúmeras ações que podem ser tomadas, como seguir pessoas negras nas redes sociais, buscar entender a luta, ouvi-las. Se você é um líder de uma companhia, busque incluí-las na sua base, para capacitá-las a ascender na empresa tendo cada vez mais líderes negros, e, ao mesmo tempo, traga pessoas negras para a liderança, com processos [seletivos] intencionais. Faça disso uma luta sua. Existe um papel corporativo e um papel pessoal muito forte”

Com mais de 35 mil seguidores no Linkedin —rede social focada em contatos profissionais —, Camargo tem sido uma voz ativa em prol da diversidade, chamando à reflexão sua audiência acerca da pauta de grupos minoritários. “É preciso olhar à sua volta e se questionar sobre a participação em eventos e premiações que só tenham pessoas brancas, se posicionar publicamente com coerência e alinhamento. O papel das pessoas brancas frente ao combate do racismo é fundamental desde que elas não sobreponham a voz de pessoas negras e sobretudo estudem muito antes de se posicionar publicamente”.

Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista

Dentro das discussões raciais da atualidade, uma máxima tem sido cada vez mais disseminada: “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Isso significa que, para entender e se posicionar acerca da pauta racial, é preciso ir além do lugar comum; é necessário ação.

Por isso, resolvemos criar um pequeno manual de como pessoas brancas e não brancas podem abordar a temática de forma pedagógica. Veja a seguir.

Como pessoas negras podem falar sobre a pauta racial com pessoas negras?

O racismo é estrutural e por esta razão está presente na vida de pessoas negras de forma sistemática. Falar sobre ele entre pessoas negras é falar sobre vivência. Aqui o termo “lugar de fala” se aplica perfeitamente, porque pessoas negras têm experiências de racismo constantemente, e falar sobre isso pode ser um lugar de acolhimento. “Discuto muito sobre racismo com amigos negros próximos e como ele afeta a saúde mental de pessoas negras. Como temos experiências muitas vezes similares, nos apoiamos muito”, diz Victor Martins, que também é estudante de psicologia. Mas uma coisa é importante ressaltar: pessoas negras não falam apenas sobre racismo.

Como pessoas negras podem falar sobre a pauta racial com pessoas brancas?

Existe um papel que pessoas brancas devem exercer quando se fala em pauta racial: se entre pessoas negras existe o lugar de fala pela vivência, pessoas brancas devem assumir o local de escuta empática e ativa. Falar sobre racismo é também discutir privilégio branco. Para entender de que forma isso afeta a vida de pessoas não-brancas, é preciso estar aberto para o aprendizado e, para isso, a escuta é essencial.

Mas não basta apenas ouvir, é preciso agir diante de situações de racismo —mas sem tomar o protagonismo de pessoas negras. Renato Camargo alerta sobre como pessoas brancas podem se tornar aliadas na luta racial: “Quando for falar sobre a pauta racial, certifique-se de que existem pessoas ali com vivência que podem falar sobre o assunto. É preciso respeitar o lugar de fala. Ser aliado na luta antirracista é diferente de ser protagonista”.

Como pessoas brancas podem falar sobre a pauta racial com pessoas brancas?

O racismo estrutural afeta pessoas brancas e negras de formas distintas, mas isso não significa que o papel de pessoas brancas seja apenas passivo, sem responsabilidade ou ação efetiva. “Os brancos, na prática, para se tornarem antirracistas têm que estudar muito, ler e seguir pessoas negras. Entender porque pessoas negras estão buscando mais inclusão dentro da sociedade. Tem que saber como se desconstruir para tomar atitude diante de situações de racismo”, explica Camargo.

Para que o combate ao racismo possa ter avanços significativos, é preciso que pessoas brancas se comprometam com esta pauta ativamente.

Algumas atitudes antirracistas

  1. Ouça quando pessoas negras falarem sobre racismo sem julgamento. Busque sair do seu lugar de privilégio e exercite a empatia;
  2. Estude. Pessoas negras não podem ser as únicas responsáveis pelo letramento racial de pessoas brancas;
  3. Questione seus amigos e familiares brancos quando escutar algo racista. Não deixe o racismo de pessoas próximas a você passar em branco;
  4. Promova a inclusão de pessoas negras em seu círculo de convívio, e isso inclui contratar e consumir produtos e serviços de pessoas negras;
  5. Faça o teste do pescoço. Sempre que estiver em locais públicos e no seu trabalho, olhe ao seu redor. Quantas pessoas negras existem naquele ambiente? Quantas delas estão em posição de liderança? Se não encontrar negros ou eles forem raros, algo está errado, afinal, a população brasileira é majoritariamente negra;
  6. Dica extra: “Fui chamado de racista, e agora?”. Primeiramente, respire. Mantenha a calma e escute o que a pessoa que fez essa pontuação sobre você tem a dizer. Se ela for uma pessoa negra, escute com mais atenção ainda. Vivemos em uma sociedade racista, portanto pode ser que, eventualmente, mesmo sem perceber, você cometa algum ato discriminatório. Por isso a dica 2 é tão importante: estude, porque quanto mais você conhece sobre o assunto, menos chances terá de proferir ofensas raciais.

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